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O ensinamento da Igreja Católica sobre as pessoas lésbicas, gays, bissexuais, transgénero ou queer (LGBTQ) é frequentemente reduzido a algumas passagens do Catecismo da Igreja Católica. No entanto, o ensinamento da Igreja sobre este tema é muito mais rico do que essas poucas linhas, embora importantes. Nisto, a situação assemelha-se à postura da Igreja quanto ao matrimónio, à pobreza, à pena de morte, ao ambiente ou a tantos outros temas complexos. O ensinamento da Igreja sobre todos estes temas, desenvolvido ao longo de dois milénios, é demasiado rico para caber num único livro, por mais exaustivo que seja.
Tendo isto presente: o que ensina a Igreja Católica sobre as pessoas LGBTQ?
Deus criou-te e ama-te
O ensinamento mais fundamental sobre as pessoas LGBTQ é este: todo o ser humano é criado e amado por Deus. Como escreveu o Papa Leão XIV na sua encíclica Magnifica Humanitas, «No centro da compreensão cristã da pessoa humana reside a grande afirmação bíblica de que o homem e a mulher são criados à imagem e semelhança do Deus Trino» (n.º 50). Isso inclui as pessoas LGBTQ. Isto pode parecer evidente para a maioria dos católicos de hoje, mas era bem menos evidente em décadas passadas.
A nossa dignidade, enquanto seres humanos, é inviolável, como afirma o Papa Leão nesta bela passagem: «Esta é a dignidade que pertence a cada ser humano pelo simples facto de existir, de ter sido querido, criado e amado por Deus. Nenhum pecado, fracasso, humilhação ou exclusão pode diminuir o valor profundo de uma vida humana que Deus quis e chamou à existência» (n.º 52).
Além disso, a Igreja ensina que Deus ama cada pessoa com um amor sem medida, difícil de conceber, que supera até o amor profundo de um pai ou de uma mãe por um filho. «Amei-te com amor eterno», diz Deus no Livro de Jeremias (31, 3). E, como qualquer pai ou mãe que ama o seu filho, Deus quer unicamente o melhor para nós: «Pois Eu bem sei os projetos que tenho a vosso respeito», diz o Senhor, «projetos de prosperidade e não de desgraça, para vos dar um futuro e uma esperança» (Jer 29, 11).
O ensinamento fundamental sobre as pessoas LGBTQ é este: todo o ser humano é criado e amado por Deus.
Para muitas pessoas LGBTQ, especialmente para quem sente que não é desejado, a quem disseram que era um erro, ou que sente a rejeição da sua própria Igreja ou família, estes ensinamentos são essenciais. No Ocidente, talvez muitas pessoas LGBTQ crentes saibam instintivamente que Deus as ama, graças a pais, irmãos, párocos e educadores afetuosos, bem como às suas vivências em paróquias acolhedoras, através dos sacramentos e na sua própria oração. Mas noutras regiões do mundo, onde a homofobia é galopante — até dentro de círculos católicos —, este é um ponto do ensinamento da Igreja que tem de ser sublinhado vezes sem conta.
O risco de não ensinar com clareza e insistência que Deus ama as pessoas LGBTQ não se limita à possibilidade de continuarem a ser perseguidas e excluídas — embora isso, por si só, já fosse trágico. Um risco de igual gravidade é que as pessoas LGBTQ (e os seus familiares e amigos) acabem convencidas de que Deus não as ama verdadeiramente — precisamente o oposto daquilo em que a Igreja acredita e ensina.
Além disso, convém sublinhar o seguinte: em parte alguma a Igreja Católica ensina que o simples facto de ser LGBTQ constitui pecado.
Portanto, o ensinamento mais fundamental da Igreja que os católicos LGBTQ devem compreender é que Deus os criou e os ama. Em virtude disso, cada um possui uma dignidade inalienável, que ninguém lhe pode retirar.
Jesus e os Evangelhos
Tendo isto presente, voltemo-nos para Jesus.
Para o cristão, os ensinamentos mais essenciais da Igreja têm a sua raiz no que Jesus disse e fez durante o seu ministério público. Nas palavras da constituição dogmática sobre a Revelação Divina do Concílio Vaticano II (Dei Verbum), Jesus Cristo é a «plenitude da revelação» (n.º 2). Poder-se-ia dizer, então, que a fonte mais central do ensinamento da Igreja não é tanto um livro, mas uma pessoa: Jesus Cristo.
Ao longo do seu ministério público, Jesus nada disse sobre a homossexualidade, pelo menos de acordo com o que se encontra registado nos Evangelhos. E podia perfeitamente tê-lo feito. Pronunciou-se sobre um vasto leque de questões afins, do matrimónio ao divórcio e aos laços familiares (Mt 19, 1-12; Mc 3, 31-35). Contudo, sobre a homossexualidade, manteve-se em silêncio.
Durante o seu ministério público, Jesus nada disse sobre a homossexualidade.
Por outro lado, Jesus mostra-nos de que forma devemos ir ao encontro dos que estão nas margens, lugar onde muitas pessoas LGBTQ sentem que se encontram hoje, quer no seio da Igreja, quer na sociedade em geral. Muitas passagens dos Evangelhos relatam como Jesus foi ao encontro de pessoas que se sentiam rejeitadas, ignoradas ou excluídas. Cada um desses encontros pode ensinar-nos alguma coisa, especialmente quando refletimos sobre a resposta da Igreja às pessoas LGBTQ, tantas delas a viver à margem.
Como trata então Jesus aqueles que estão nas margens? Olhemos brevemente para três episódios dos Evangelhos.
Em primeiro lugar, nos Evangelhos de Mateus e de Lucas, Jesus encontra um centurião romano que suplica a cura para o seu servo (Mt 8, 5-13; Lc 7, 1-10). Quando o centurião diz a Jesus que não é «digno» de que Ele entre «debaixo do meu teto», Jesus declara que a fé daquele homem é maior do que qualquer outra que tenha encontrado em Israel e cura o servo. Repare-se que, embora este centurião (segundo o Evangelho de Lucas) tenha financiado a construção da sinagoga local, ele estava o mais afastado possível do meio judaico: era romano, pagão e pertencia a um exército de ocupação.
Ainda assim, Jesus trata o centurião com imenso respeito e atende-lhe o pedido. É um dos primeiros sinais de como Jesus trata as pessoas que estão à margem.
Em segundo lugar, consideremos a passagem da Samaritana, frequentemente recordada como a «Mulher junto ao Poço», no Evangelho de São João (4, 4-42). Esta é uma passagem marcante para as pessoas LGBTQ porque, no desenrolar da narrativa, percebemos que aquela mulher fora provavelmente marginalizada pela sua comunidade (o que justificaria o facto de ir tirar água ao meio-dia, a hora de maior calor, quando as restantes mulheres não estariam presentes). Uma razão plausível para essa exclusão, intuída por Jesus, prende-se com o facto de ter sido casada cinco vezes e de viver com um homem que não é o seu marido. Tinha, assim, aquilo a que hoje poderíamos chamar de um passado e um presente sexual «irregular».
Seria este um motivo pelo qual poderíamos esperar que Jesus não perdesse muito tempo com ela, ou que pura e simplesmente a ignorasse. Acresce o facto de ser samaritana, membro de uma comunidade que estava frequentemente em conflito com muitos judeus da época — razão pela qual a parábola de Lucas sobre o Bom Samaritano ressoa com tanta força (10, 25-37). E, evidentemente, era mulher. Embora Jesus fale com frequência com mulheres durante a sua vida pública, o Evangelho de São João sublinha que os discípulos ficaram «admirados» por Ele estar a falar com ela.
Ainda assim, Jesus interage com a Samaritana numa das conversas mais longas registadas nos Evangelhos e revela-se-lhe como a «água viva». Depois disto, a mulher regressa para junto dos seus para contar a experiência que viveu. Torna-se, desta forma, uma apóstola: não um dos Doze, mas ainda assim apóstola, alguém enviado — sentido primordial do termo grego apostolos. Diga-se de passagem que não existe o mais leve indício de condenação nesta passagem; antes, é a história de Jesus que vai ao encontro da samaritana, a escuta e lhe revela algo crucial sobre a sua identidade divina. É mais uma demonstração de como Jesus trata quem está na periferia.
Por fim, vejamos o relato de Zaqueu, o chefe dos cobradores de impostos de Jericó, no Evangelho de São Lucas (19, 1-10). Com toda a probabilidade, Zaqueu seria malvisto pela população judaica de Jericó por dois motivos: primeiro, pelo seu alinhamento com os poderes romanos ocupantes; segundo, pela suspeita generalizada de que os cobradores de impostos desviavam verbas para enriquecimento pessoal.
Podemos olhar para Zaqueu como uma espécie de imagem do católico LGBTQ — não por se equipararem as pessoas LGBTQ ao pecado, mas pela probabilidade de Zaqueu se sentir excluído. A sua situação e a reação de Jesus convidam-nos a refletir sobre o acolhimento pastoral da Igreja às pessoas LGBTQ.
O Evangelho de São Lucas descreve Zaqueu como sendo «de baixa estatura». E quão diminuta não tem sido a estatura, ou o reconhecimento, das pessoas LGBTQ na Igreja de hoje? Além disso, ele não consegue ver Jesus «por causa da multidão» (sendo ele um homem mais baixo), e quantas vezes não se transformou a Igreja precisamente nessa «multidão» que impede a pessoa de pequena «estatura» de ver Jesus? Zaqueu vê-se assim forçado a subir a um sicómoro nas redondezas para vislumbrar Jesus — tendo de fazer um esforço bem superior ao dos restantes para alcançar o mesmo encontro.
Podemos olhar para Zaqueu como uma espécie de imagem do católico LGBTQ — não por se equipararem as pessoas LGBTQ ao pecado, mas pela probabilidade de Zaqueu se sentir excluído.
Quando Jesus avista Zaqueu na árvore, anuncia à multidão que irá cear em casa dele — aquilo a que os estudiosos da Bíblia chamam a partilha de mesa (table fellowship), um sinal inequívoco de comunhão e acolhimento. Contudo, como regista Lucas, a multidão reage com indignação: «Ao verem isto, todos murmuravam». Naquela altura, tal como hoje, demonstrar misericórdia para com os marginalizados suscita invariavelmente a ira de alguns.
Tanto Jesus como Zaqueu, porém, mantêm-se firmes (a palavra grega utilizada, statheis, carrega esse sentido). É nesse momento que o cobrador de impostos experimenta uma conversão, prometendo restituir quatro vezes mais a quem tiver defraudado e repartir metade dos seus bens com os pobres. Curiosamente, os verbos em grego surgem no tempo presente: «Dou aos pobres…», «restituo…». Talvez a conversão que se pretende evidenciar não seja apenas a de Zaqueu, mas a da própria multidão, que se apercebe de que aquele homem ostracizado era afinal mais generoso do que tinham presumido à partida.
O relato de Zaqueu pode ajudar-nos a perceber a necessidade de a Igreja permanecer ao lado dos que estão nas margens, mesmo quando os outros «murmuram». No seu todo, cada uma destas três narrativas evangélicas — o centurião romano, a Samaritana e Zaqueu — constitui uma expressão fundamental do ensinamento da Igreja, recordando-nos o dever de estar com quem se sente excluído, como tantas vezes acontece com as pessoas LGBTQ.
(Para assistir a uma conferência sobre estas três narrativas, proferida na Igreja de Jesus em Roma, clique aqui).
A homossexualidade no Antigo e no Novo Testamento
Como referi, embora a temática da homossexualidade seja premente para muitos nos dias de hoje, Jesus nunca se pronunciou explicitamente sobre o tema nos Evangelhos, ainda que o pudesse ter feito. Surgiu recentemente uma teoria segundo a qual o servo do centurião romano seria seu companheiro amoroso (sustentada no facto de o jovem ser designado em grego por pais, «jovem, rapaz, discípulo», um termo porventura mais afetuoso do que doulos, «servo» ou «escravo», habitualmente empregue nos Evangelhos), mas trata-se de uma leitura minoritária entre os especialistas.
Em termos gerais, podemos dizer que não existe qualquer evidência de que a homossexualidade seja abordada nos Evangelhos.
As raras ocasiões em que a homossexualidade é referida na Bíblia, no Antigo e no Novo Testamento, têm um cariz negativo. É, por exemplo, classificada como «abominação» no Levítico (18, 22). Devido ao seu tom negativo, estas poucas passagens são muitas vezes conhecidas como «passagens de ataque», visto que foram historicamente usadas para atacar e discriminar cristãos LGBTQ.
Contudo, mesmo uma leitura breve destas passagens revela considerações essenciais.
Antes de mais, uma imensa variedade de coisas é rotulada como «abominação» ou, de forma mais ampla, proibida no Antigo Testamento: o comércio desonesto (Dt 25, 13-16); o consumo de carne de porco (Lv 11, 7-8); semear duas espécies diferentes de sementes no mesmo campo (Lv 19, 19), entre outras. E múltiplos delitos surgem como passíveis de pena de morte no Antigo Testamento, a exemplo do adultério (Lv 20, 10).
Ainda assim, impõe-se contextualizá-los histórica e culturalmente. Se hoje não formos judeus observantes, provavelmente não evitamos a carne de porco. Um agricultor atual pode semear diferentes espécies no mesmo terreno. E, embora o adultério seja pecado, a maioria dos cristãos não defende que deva ser punido com a pena capital. Por outras palavras, a maioria dos crentes contemporâneos compreende estas condenações e interdições à luz do seu contexto histórico e sociocultural.
Temos de situar as passagens bíblicas sobre a homossexualidade no seu contexto histórico e cultural.
Como nos recorda a constituição dogmática Dei Verbum, do Concílio Vaticano II: «Como a Sagrada Escritura deve ser lida e interpretada com o mesmo Espírito com que foi escrita, para descobrir com exatidão o sentido dos textos sagrados, deve atender-se com não menor diligência ao conteúdo e à unidade de toda a Escritura» (n.º 12).
Do mesmo modo, há práticas que o Antigo e o Novo Testamento apresentam como moralmente aceitáveis que hoje reconhecemos como profundamente injustas ou mesmo perversas: a escravatura é o exemplo mais flagrante. O Livro do Êxodo legitima que um pai venda a própria filha como escrava (21, 7) e, na Epístola aos Efésios, São Paulo exorta os escravos a que «obedeçam aos seus senhores terrenos» (6, 5-9). A generalidade dos cristãos compreende hoje que estas instruções têm de ser lidas no seu contexto histórico e, por vezes, como no caso da escravatura, compreendidas de uma forma inteiramente renovada.
No que toca às condenações de São Paulo à homossexualidade, existe uma área de investigação que procura discernir o que o Apóstolo pretendia significar com os termos arsenokoitai (um aparente neologismo que justapõe os termos «macho» e «leito») e malakoi (com o significado de «macio» ou «brando») para qualificar aquilo que condenava. Alguns estudiosos contemporâneos sustentam que tais referências estariam mais ligadas à dominação masculina, exploração sexual ou violação, do que às relações de reciprocidade, amor e consentimento que muitos casais do mesmo sexo vivem hoje — realidade que seria, com grande probabilidade, desconhecida de São Paulo.
Uma vez mais, estas leituras exigem contextualização («Um texto fora de contexto é pretexto», como diz a expressão). As traduções bíblicas mais recentes procuram levar isso em conta. A New Revised Standard Version Updated Edition, que privilegia o rigor da tradução ao mesmo tempo que tem em conta as diferenças culturais ao longo da história, traduz arsenokoitai em 1 Coríntios 6, 9 como «prostitutos masculinos». Também o documentário recente «1946» investigou o impacto que a tradução destes termos teve na mundividência cristã sobre a homossexualidade.
(Para aprofundar a abordagem bíblica sobre a homossexualidade e as «clobber passages», consulte a compilação com alguns dos principais exegetas mundiais em The Outreach Guide to the Bible and Homosexuality e no livro The Bible and Homosexuality).
O Catecismo sobre a homossexualidade e as relações entre pessoas do mesmo sexo
Quando passamos ao Catecismo da Igreja Católica, o compêndio oficial do ensinamento da Igreja, encontramos um olhar de compaixão para com as pessoas LGBTQ. O Catecismo pede-nos que acolhamos as pessoas homossexuais — e não apenas que as tratemos — com «respeito, compaixão e delicadeza» (n.º 2358). (O termo «homossexuais» é o adotado no Catecismo, promulgado originalmente em 1992, mas é inteiramente legítimo alargar a aplicação às pessoas LGBTQ em geral).
Todas estas palavras — «acolhimento», «respeito», «compaixão» e «delicadeza» — configuram virtudes essenciais num mundo, e por vezes numa Igreja, onde as pessoas LGBTQ continuam sujeitas à exclusão, à indiferença ou ao desprezo.
O Dr. David Palmieri, pedagogo de longa data no ensino católico, fez notar que, aquando da redação do Catecismo sob o pontificado de São João Paulo II, este foi publicado primeiramente em francês, em 1992. Uma frase do n.º 2358 é particularmente expressiva. Aludindo às pessoas com «tendências homossexuais», o original francês estipula: «Ils doivent être accueillis avec respect, compassion et délicatesse» («Devem ser acolhidos com respeito, compaixão e delicadeza»).
A versão inglesa de 1994 apresentou esta frase por «They must be accepted with respect, compassion, and sensitivity» («Devem ser aceites com respeito, compaixão e delicadeza»). «Surgiram rapidamente dúvidas sobre o significado da palavra ‘aceite’ em inglês», observou Palmieri, «dada a sua propensão para sugerir anuência moral em vez de consideração moral». Em 1997, a Sé Apostólica publicou a edição típica latina do Catecismo, que verteu a frase como «Excipiendi sunt observantia, compassione et suavitate» («Devem ser acolhidos/recebidos com respeito, compaixão e suavidade»). Palmieri assinala: «Embora a tradução inglesa tenha mantido a palavra accept, o recurso da versão latina a excipiendi sunt (devem ser recebidos/acolhidos) clarificou que o propósito da Igreja é o da hospitalidade».
Curiosamente, a primeira edição em língua inglesa do Catecismo, publicada em 1994, acrescentava igualmente: «Eles não escolhem a sua condição homossexual», intuição que acabou por ser suprimida em tiragens subsequentes e que já não consta da versão digital, sobrevivendo unicamente em edições impressas mais antigas.
Importa, de qualquer forma, observar as linhas citadas com maior assiduidade. O Catecismo ensina que a homossexualidade (a inclinação em si, não a pessoa) constitui uma «desordem objetiva» e que os atos homossexuais são «intrinsecamente desordenados» (cf. n.º 2357-2358). Assim, as pessoas homossexuais são chamadas à castidade, remetendo para a Declaração Persona Humana, emitida pela Congregação para a Doutrina da Fé em 1975.
Qual o significado destes conceitos?
Primeiramente, não significa que as pessoas LGBTQ constituam um erro. Nem significa que sofram de distúrbios de cariz psicológico ou que sejam em si mesmas desordenadas. Na teologia católica, a relação sexual encerra duas finalidades que se encontram «indissoluvelmente unidas», conforme explicitado pelo Papa Paulo VI na encíclica Humanae Vitae, de 1968, sobre a regulação da natalidade. Trata-se de noções de ordem eminentemente filosófica e teológica, relativas aos fins ou objetivos últimos (telos, na aceção grega) da sexualidade humana.
Uma das finalidades do ato conjugal é «procriativa» (a geração de filhos) e a outra é «unitiva» (o amor recíproco, a mútua entrega e o apoio afetivo). A doutrina sustenta que, uma vez que a união entre pessoas do mesmo sexo não comporta a procriação biológica, o impulso erótico homossexual não se encontra «ordenado» para o respetivo fim. É imperioso reconhecer que o Catecismo não se pronuncia aqui sobre o amor, afeto e apoio mútuos ou a amizade profunda que une dois homens ou duas mulheres, mas antes sobre os impulsos físicos de natureza erótica. Com efeito, mesmo ao justificar a razão pela qual «não pode legitimar» as uniões entre pessoas do mesmo sexo no plano da atividade sexual, o Dicastério para a Doutrina da Fé reconheceu recentemente a presença de «elementos positivos, que são em si mesmos valorizados e apreciados» nestas relações.
Por outro lado, embora sem a autoridade de um documento do Vaticano, diversos bispos a título individual e até conferências episcopais têm formulado apreciações positivas sobre o amor presente em casais do mesmo sexo. Em 2022, o episcopado belga escreveu o seguinte nas diretrizes pastorais «Estar pastoralmente próximo das pessoas homossexuais»: «Outros optam por viver em casal, numa união estável e fiel com um parceiro. Também estes merecem o nosso apreço e apoio, pois esta união, embora não seja um matrimónio pela Igreja, pode constituir uma fonte de paz e de felicidade partilhada para ambos».
Muitos casais do mesmo sexo que partilham a vida há longos anos diriam que as suas relações são, com efeito, fontes profundas de amor e entreajuda.
Não surpreende que muitos casais do mesmo sexo com anos de vida partilhada descrevam as suas relações como fontes profundas de amor e apoio. Muitos destes casais demonstram também um amor de entrega, como quando um dos companheiros adoece e o outro cuida dele. Por isso, muitos sentem-se magoados quando a Igreja não reconhece essas relações como «unitivas».
Mais recentemente, a Igreja passou a admitir que sacerdotes e diáconos possam, sob determinadas condições, conceder bênçãos quando solicitadas por casais do mesmo sexo. O passo foi recebido por muitos analistas como um avanço significativo, embora tenha suscitado forte resistência noutros quadrantes. De acordo com a declaração Fiducia Supplicans («Sobre o Sentido Pastoral das Bênçãos»), promulgada pelo Dicastério para a Doutrina da Fé em 2023, tais bênçãos não podem revestir caráter litúrgico (não podem assemelhar-se a um rito matrimonial); não podem ser planeadas (o casal não deve, por exemplo, fazer convites); e devem ser espontâneas (ministradas, por hipótese, nos degraus de uma igreja antes ou depois da Missa). Pretende-se, com isto, evitar qualquer equívoco que leve a crer que a Igreja está a celebrar casamentos entre pessoas do mesmo sexo.
Estas formas de bênção têm-se revelado controversas, como já referido, com muitos bispos, sobretudo em África (e uma importante conferência episcopal africana), a afirmarem que não aceitarão este ensinamento do Vaticano. Por outro lado, em muitos lugares, especialmente no Ocidente, esta nova autorização tem sido bem recebida, com os casais do mesmo sexo (a expressão usada no documento) a valorizarem a sensação de que os ministros da Igreja podem responder-lhes com acompanhamento pastoral.
(Para mais dados sobre o Catecismo e a homossexualidade, ver «Qual é a doutrina oficial da Igreja sobre a homossexualidade?»).
Acompanhamento pastoral das pessoas transgénero
Por fim, há a questão relativamente recente do ensinamento da Igreja sobre as pessoas transgénero e do seu acompanhamento pastoral. A este propósito, a resposta da Igreja tem sido complexa, variando de país para país e até de diocese para diocese. Em Amoris Laetitia, a exortação apostólica publicada na sequência do Sínodo sobre a Família de 2015, o Papa Francisco escreveu que «o sexo biológico e o papel sociocultural do sexo (género) podem ser distinguidos, mas não separados». Ao mesmo tempo, perto do fim da sua vida, o Papa Francisco encontrava-se regularmente com pessoas transgénero, como sinal da sua proximidade pastoral.
Em 2019, o organismo do Vaticano então designado Congregação para a Educação Católica (hoje integrado no Dicastério para a Cultura e a Educação) publicou um documento intitulado «Homem e mulher os criou», que condena qualquer «teoria do género» que permita às pessoas «escolher o próprio género». Ao mesmo tempo, apela ao diálogo e à escuta sobre este tema. Há alguns anos, quando me encontrei com o prefeito desse organismo, o cardeal Giuseppe Versaldi, este disse-me que eu podia partilhar publicamente o seu desejo de que o documento não prejudicasse as pessoas transgénero e salientou que se destinava sobretudo às escolas católicas.
E quanto ao tratamento e ao acompanhamento pastoral das pessoas transgénero na Igreja nos Estados Unidos?
Por um lado, alguns bispos impõem fortes restrições à frequência de escolas católicas por alunos transgénero e, por vezes, recusam mesmo permiti-la. Por outro lado, existem orientações do Dicastério para a Doutrina da Fé, do Vaticano, já aplicadas em algumas dioceses dos Estados Unidos, que afirmam que as pessoas transgénero podem ser padrinhos de batismo e testemunhas de casamento. A Diocese de Davenport, no Iowa, para citar apenas um exemplo, publicou um documento sobre o acompanhamento pastoral das pessoas LGBTQ, fruto de várias sessões de escuta, que muitos consideraram uma abordagem compassiva aos alunos transgénero nas escolas católicas.
Por fim, temos o testemunho de bispos como o cardeal Wilton Gregory, antigo arcebispo de Washington, D.C., que, quando uma jovem transgénero lhe perguntou qual era o seu lugar na Igreja, respondeu: «Tu pertences ao coração desta Igreja». E algumas paróquias acolhem pessoas transgénero no ministério pastoral, como temos partilhado em artigos na Outreach.
Outras formas de ensinamento
Os estudiosos do Novo Testamento recordam-nos que Jesus ensinava tanto por palavras como por ações, umas reforçando as outras. Do mesmo modo, aquilo que os responsáveis da Igreja, sobretudo os papas e os bispos, dizem e fazem é ensinamento. Convém também recordar que existem diferentes «níveis» de ensinamento da Igreja: o que o Concílio Vaticano II promulgou num documento, ou o que o Papa escreve numa encíclica, situa-se naturalmente num nível diferente de um comentário informal de um bispo ou de algo que um padre ou diácono diz numa homilia. Tendo isto presente, podemos analisar vários desses «ensinamentos» dos últimos anos.
Para começar, embora esta posição ainda não tenha sido incluída no Catecismo da Igreja Católica, o Papa Francisco pronunciou-se publicamente contra a criminalização da homossexualidade. (Em alguns países, as relações entre pessoas do mesmo sexo não só constituem crime como também são puníveis com a pena de morte.) Durante o seu pontificado, Francisco também afirmou que os pais nunca devem abandonar os seus filhos LGBTQ; nomeou um homem assumidamente homossexual para uma comissão pontifícia; escreveu cartas de boas-vindas às conferências da Outreach; e encontrou-se com católicos que prestavam acompanhamento pastoral a pessoas LGBTQ, entre os quais a irmã Jeannine Gramick, S.L., cofundadora do New Ways Ministry, e eu próprio. Tudo isto são formas de ensinamento.
Mais recentemente, o Papa Leão XIV conversou com a jornalista Elise Allen para a biografia que esta escreveu sobre ele e falou sobre a aceitação. Diga-se de passagem que, ao responder-lhe, usou a expressão «questões LGBTQ», o que marca uma mudança em relação aos responsáveis da Igreja que fazem tudo para evitar o termo. «O que estou a tentar dizer é aquilo que Francisco dizia com muita clareza quando repetia “todos, todos, todos”», disse o Santo Padre. «Todos são convidados a entrar, mas não convido uma pessoa a entrar por ter ou não ter uma identidade específica. Convido uma pessoa a entrar porque é filho ou filha de Deus. São todos bem-vindos; vamos conhecer-nos e respeitar-nos uns aos outros.»
Na minha audiência com o Santo Padre, em setembro de 2026, a mensagem que ouvi foi que queria dar continuidade à abertura e ao acolhimento de Francisco, mas que tinha também outras questões a tratar: a guerra, a paz e a unidade da Igreja. Trata-se, também aqui, de genuíno ensinamento do papa.
Como nos diz Jesus em Jo 13, 34, somos chamados a «amar-nos uns aos outros».
Recentemente, tem-se assistido, também na Igreja, a numerosas intervenções de cardeais, arcebispos e bispos sobre a extensão do acompanhamento pastoral às pessoas LGBTQ na Igreja, desde o cardeal Domenico Battaglia, em Itália, ao cardeal Robert McElroy, nos Estados Unidos, passando por D. Arnaldo Carvalheiro Neto, responsável pela ligação oficial entre a conferência episcopal brasileira e os católicos LGBTQ. Mais uma vez, tudo isto são formas de ensinamento — neste caso, por parte de bispos, cujo ministério tradicional é «ensinar, governar e santificar». Uma conferência recente, na Cúria dos Jesuítas, em Roma, que abordou questões sobre o acompanhamento pastoral das pessoas LGBTQ e refletiu sobre todos estes níveis do ensinamento da Igreja, contou com a presença de dez bispos italianos.
(Consulte Outreach.faith para mais testemunhos de papas, cardeais, arcebispos e bispos sobre as pessoas LGBTQ).
Amai-vos uns aos outros
Em resumo, ao considerarmos o ensinamento da Igreja sobre as pessoas LGBTQ, regressamos ao ensinamento fundamental: são criadas e amadas por Deus. E, ao olharmos para as palavras e os gestos de Jesus durante o seu ministério público e ao vermos como vai repetidamente ao encontro de quem está à margem, somos convidados a perguntar-nos: de que modo estamos a «fazer o mesmo» e como estamos a tratar e a acolher as pessoas LGBTQ com o «respeito, compaixão e delicadeza» de que fala o Catecismo?
Mais fundamentalmente, como diz Jesus em Jo 13, 34, somos convidados a «amar-nos uns aos outros».
Partes deste artigo foram publicadas anteriormente, em formato condensado, em «What does the Catholic Church teach on LGBTQ people?» na revista U.S. Catholic; em «What is official church teaching on homosexuality?» na America Media; e no artigo «Zacchaeus, the grumblers and LGBTQ people» no portal Outreach.faith. Veja-se igualmente The Bible and Homosexuality, compilação de ensaios da Outreach coordenada por Michael J. O’Loughlin, bem como o recurso digital que reúne esses mesmos ensaios, The Outreach Guide to the Bible and Homosexuality. Para aprofundar os conceitos do Catecismo da Igreja Católica em torno de «respeito, compaixão e sensibilidade/delicadeza», consulte a minha obra Construir uma Ponte: Como a Igreja Católica e a Comunidade LGBT Podem Estabelecer uma Relação de Respeito, Compaixão e Sensibilidade.


