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O saudoso Papa Francisco nos deixou um belo ensinamento sobre a dimensão evangélica do verdadeiro encontro ao qual Jesus nos convida. Em 13 de setembro de 2016, em uma meditação matutina na capela da Casa Santa Marta, ele renovou esse convite, motivando-nos a trabalhar pela “cultura do encontro” de modo simples, como fez o próprio Senhor: “não só vendo mas olhando, não apenas ouvindo mas escutando, não só cruzando-se com as pessoas mas detendo-se com elas, não só dizendo, que pena, pobrezinhos! mas deixando-se arrebatar pela compaixão; e depois aproximar-se, tocar e dizer: “Não chores” e dar pelo menos uma gota de vida”.
À luz desse chamado, recebi com alegria o convite que me foi feito em outubro de 2025 pela presidência da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) para ser o bispo referencial que acompanhará as atividades da Rede Nacional de Grupos Católicos LGBT+ em nosso país. Diante da necessidade que enxergo de sermos cada vez mais uma Igreja em saída e promotora do encontro, aceitei de imediato essa missão. O processo de acompanhamento pastoral inclui muito mais um percurso pedagógico de elaboração metodológica, adaptada às exigências de uma verdadeira cultura do encontro do que propriamente uma inovação teológica do ponto de vista da Moral Cristã. Nesse sentido, trata-se de oferecer, como bispo, uma interlocução marcada pela acolhida, escuta e discernimento, sempre à luz daquilo que as Escrituras, a Tradição e o Magistério nos ensinaram através dos séculos.
No Brasil, a Rede é formada por grupos católicos de pessoas LGBT+ e aliadas, que buscam viver seu batismo na prática pastoral e comunitária da Igreja, comprometidas com os princípios e valores do Evangelho de Jesus Cristo em uma Igreja em saída (cfe. Evangelii Gaudium, 26), na construção do Reino de Deus. A Rede tem uma Coordenação Nacional e Coordenações Regionais (Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul), que congregam os diversos grupos, núcleos e coletivos espalhados por todo o país. Tenho a alegria de ser o primeiro bispo referencial desta Rede que existe há mais de 15 anos. A Rede está associada à CNLB – Comissão Nacional do Laicato do Brasil, um organismo da CNBB para a articulação, organização e representação dos cristãos leigos e leigas da Igreja Católica no Brasil.
As pessoas LGBT+ compõem um grupo social que sofre de muito preconceito e discriminação que geram toda a sorte de violência. O Brasil apresenta tristes índices elevados de violência contra essas pessoas. A homofobia mata! Não são poucos os homicídios perpetrados contra pessoas LGBT+, motivados pelos discursos de ódio e pelo fundamentalismo religioso. Todo discurso religioso que incita violência contra a pessoa humana, ferindo sua dignidade de filha de Deus é uma contradição ao Evangelho. O índice de suicídios entre os jovens LGBT+ é cinco vezes maior se comparado com os jovens heterossexuais. Infelizmente, a homofobia também está presente em nossas comunidades cristãs. Nunca me esqueço de um jovem homoafetivo que, após ter relatado a sua dolorosa experiência de discriminação dentro da sua comunidade de fé, concluiu: “a melhor coisa que aconteceu na minha vida, foi ter deixado a Igreja!”. Se para alguns, a presença dos nossos irmãos e irmãs LGBT+ na Igreja é motivo de escândalo, escândalo ainda maior é excluí-los e marginalizá-los.
Nesse sentido, o acompanhamento pastoral a ser exercido deve ser pautado por atividades de olhar, escuta e proximidade. É isso que o Papa Francisco quis destacar quando mencionou o episódio do filho da viúva de Naim conforme citação acima. Não se trata de se deter diante das incitações legalistas que podem reduzir a ação evangelizadora da Igreja a um conjunto de normas ou regras deslocadas de seu tempo. O legalismo, quando insuflado pelos mecanismos algorítmicos das redes, podem contribuir para o aumento dos casos de violência. Trata-se de se deter diante da pessoa humana e suas dores, de tocar suas feridas abertas pelas marcas da indiferença e do ódio, de permitir-se ser afetado pela compaixão e pela misericórdia.
Esse trabalho demarca uma proposta pedagógica diferente, marcada pela escuta, discernimento e anúncio de uma boa nova que chegue aos ouvidos das pessoas LGBT+ como sinal de esperança, jamais se servindo de uma linguagem de condenação. É isso que considero uma pedagogia do encontro. Uma pedagogia que permite com que a realidade apresente suas demandas. Uma pedagogia que encarne as dores do mundo e que se proponha a não lhes desviar o olhar. Uma pedagogia que nos conduza como pastores a insistir na mensagem de vida em abundância contra toda forma de exclusão e de morte.
É de grande importância a mensagem deixada pelo Papa Francisco em Amoris Laetitia, reiterando que
nem todas as discussões doutrinais, morais ou pastorais devem ser resolvidas através de intervenções magisteriais. Naturalmente, na Igreja, é necessária uma unidade de doutrina e práxis, mas isto não impede que existam maneiras diferentes de interpretar alguns aspectos da doutrina ou algumas consequências que decorrem dela. (Amoris Laetitia,3.)
O caminho sinodal reiterado pelo Papa Francisco e mantido por seu sucessor, Leão XIV, nos motivam a uma atitude de escuta qualificada e desarmada. Uma atitude de interpretação que não tira os olhos da realidade, mas se coloca junto, como Igreja samaritana, ao lado dos que sofrem. Trata-se de um caminho pedagógico de encontro com os marginalizados feridos pelos percalços da história. Assim nos exortava Francisco:
Com os Padres sinodais, examinei a situação das famílias que vivem a experiência de ter no seu seio pessoas com tendência homossexual, experiência não fácil nem para os pais nem para os filhos. Por isso desejo, antes de mais nada, reafirmar que cada pessoa, independentemente da própria orientação sexual, deve ser respeitada na sua dignidade e acolhida com respeito, procurando evitar «qualquer sinal de discriminação injusta e particularmente toda a forma de agressão e violência. Às famílias, por sua vez, deve-se assegurar um respeitoso acompanhamento, para que quantos manifestam a tendência homossexual possam dispor dos auxílios necessários para compreender e realizar plenamente a vontade de Deus na sua vida. (Amoris Laetitia, 250.)
Desse modo, a Igreja, atenta aos sinais e exigências do seu tempo, coloca-se como aquela que deve assegurar esse acompanhamento. Deve dispor de meios para que cada família e cada pessoa humana encontrem o sentido de sua humanidade re-significada em Cristo e possam olhar sua própria sexualidade a partir das perspectivas do dom e da graça, ou seja, à luz daquilo que podem contribuir para o mundo. É nesse sentido que o acompanhamento pastoral junto a Rede Nacional de Grupos Católicos LGBT+ se desenvolverá. Um caminho que será trilhado junto com aqueles e aquelas que se dispõem a percorrer as trilhas do Reino. Um Reino exigente, que exige a renúncia e a coragem da verdade. Verdade que não se encontra fora de um encontro autêntico e sincero com a pessoa de Jesus de Nazaré.
Conduzir cada fiel, independentemente de sua orientação sexual a decidir-se por esse caminho é o que entendo como pedagogia do encontro. Juntos, percorreremos as vias do afeto, da alegria e da escuta. Juntos, haveremos de nos agraciar com a presença dAquele que se aproximou de nós, como à viúva de Naim, e nos disse: “Não chores”.Aquele que nunca nos abandona.



